Tudo começou muito antes da Marquês de Sapucaí virar símbolo mundial. Nos anos 80, enquanto o Rio fervia nas ruas, Zezé já entendia o Carnaval como um território de liberdade. Foi na Banda de Ipanema que ela construiu uma das relações mais profundas com a festa: mais de 40 anos desfilando, celebrando diversidade, irreverência e o direito de existir sem amarras.
Ali, ela foi além da fantasia — fez do próprio corpo manifesto. Desfilou como quis, inclusive com os seios à mostra, não como provocação, mas como afirmação. Para ela, Carnaval sempre foi isso: autonomia, coragem e expressão.

Mas foi em 1984 que a história ganhou outra dimensão. Zezé esteve na inauguração do Sambódromo da Marquês de Sapucaí — e não como convidada qualquer. Ela fez parte daquele momento fundacional da cultura brasileira.
Naquele mesmo ano, viveu um dos capítulos mais emblemáticos da sua trajetória: desfilou duas vezes na avenida. Primeiro como Xica da Silva pelo Império Serrano, em um desfile arrebatador, ovacionado, carregado de energia. Dias depois, voltou à Sapucaí com o Acadêmicos do Salgueiro para gravar cenas da novela Transas e Caretas. Era o encontro da televisão com o Carnaval. Era arte atravessando a avenida.




E como se não bastasse desfilar, Zezé virou tema. Ainda nos anos 80, a escola Arrastão de Cascadura levou para a avenida o enredo “Zezé, Um Canto de Amor e Raça”. Quase 3 mil componentes contando sua história em forma de samba, com direito a ala das baianas e homenagem a Oxum. Um desfile que transformou sua trajetória em memória coletiva.

Em 1988, ela quase ficou de fora. Sem muita animação, recusou o convite inicial de Martinho da Vila. Mas o enredo da Unidos de Vila Isabel — celebrando o centenário da abolição e exaltando a cultura negra — falou mais alto. Zezé voltou atrás. Resultado? Campeã daquele ano, em um dos desfiles mais simbólicos da história da Sapucaí.




Zezé Motta não apenas desfilou na Sapucaí, ela também transformou a avenida em set de cinema. Em Águia na Cabeça (1984), gravou cenas em pleno desfile, inserida na energia real da avenida, e anos depois repetiu essa experiência em Orfeu (1999), novamente filmando no meio do Carnaval, com bateria, público e emoção acontecendo de verdade. Ou seja: Zezé já atravessou a Sapucaí duas vezes — desfilando e atuando ao mesmo tempo.

E o Carnaval seguiu devolvendo tudo em forma de reverência. Em 1999, no enredo Damas Negras, a Lins Imperial celebrou Zezé ao lado de nomes como Ruth de Souza, Chica Xavier e Léa Garcia, reconhecendo sua importância no audiovisual brasileiro. Ao longo dos anos, ela atravessou diversas escolas e personagens: Viradouro, Mangueira, Grande Rio, Imperatriz, Sossego… sempre como presença forte, carregada de significado.



No fim, o que Zezé Motta construiu no Carnaval não é uma sequência de desfiles — é uma narrativa.
Uma história onde avenida vira palco, corpo vira discurso e o samba vira memória.
Porque, como ela mesma diz, o Carnaval nunca foi só festa.
É identidade. É resistência.
E toda vez que a bateria começa…
o coração dela — e o de muita gente — ainda desfila junto.













1984 — Império Serrano
1984 — Acadêmicos do Salgueiro
1988 — Unidos de Vila Isabel
1989 — Arrastão de Cascadura
1998 — Unidos do Viradouro
1999 — Acadêmicos do Grande Rio
1999 — Lins Imperial
2002 — Unidos de Vila Kennedy
2002 — Estação Primeira de Mangueira
2003 — Acadêmicos do Salgueiro
2011 — Imperatriz Leopoldinense
2017 — Acadêmicos do Sossego
2019 – Porto da Pedra (ao lado de Antônio Pitanga em sua homenagem)


